O uso de tecnologias da informação para qualificar serviços urbanos tem ganhado relevância em todo o mundo e também no Brasil, criando uma infraestrutura inovadora para as cidades. Mas onde ficam as pessoas neste contexto?

No futuro próximo, a tecnologia deve server como mediador na relação entre os que ofertam serviços, incluindo o setor público, e as pessoas. Isso possibilitaria uma vivência democrática e descomplicada da urbe, além de maior accountability no que se refere ao governo.

Essa foi uma das conclusões a que chegara os especialistas e gestores públicos que participaram na última quinta (22) do 2o Fórum CityTech, realizado em parceria com o Connected Smart Cities – evento voltado para debates sobre inovação urbana e tecnologia.

Oportunidades Urbanas

Presentes no primeiro painel, o secretário de Inovação de São Paulo, Daniel Annemberg; a representante do SEBRAE na pauta de empreendedorismo, Ana Clévia Guerreiro; Anielle Guedes, empreendedora do Urban 3D; Fabio Kon, Acadêmico e especialista na área de inovação da Universidade de São Paulo; Mie Jojima da SP Negócios, ligada à Prefeitura de São Paulo; e Camilo Veigas, da Polícia Civil.

Os presentes apontaram durante as falas ações em curso em suas áreas de atuação e oportunidades que podem ser exploradas por empreendedores interessados em criar soluções para as cidades.

O secretário municipal Daniel Annemberg destacou 6 temas estratégicos de sua pasta para possibilitar uma maior sinergia com o ambiente de inovação, entre eles, integração dos serviços públicos; uso das tecnologias da informação para criar processos e serviços eletrônicos; participação social e fomento a um ecossistema empreendedor.

Do ponto de vista das ações que a Prefeitura já tem para criar a ponte para uma cidade verdadeiramente smart e empreendedora, Annemberg destacou a importância da “simplificação”dos processos burocráticos. Citou o programa Empreenda fácil, que permite ao munícipe abrir sua empresa em 7 dias; o MobiLab, criado na gestão anterior, e um espaço desenvolvido para acolher empreendedores interessados em criar soluções para mobilidade a partir de dados abertos; além da instalação de 500 pontos de wifi público para permitir uma verdadeira conectividade. “É preciso gestão pública e governança, não só tecnologia”, ponderou o secretário.

Representando a SP Negócios, atualmente a cargo da pauta de desestatização da atual gestão municipal, Mie Jojima, destacou algumas das ações que até o ano passado eram lideradas por sua equipe. Há 5 anos envolvida com a pauta da inovação, ela citou o desafio de trabalhar com dados abertos, um processo custoso e complexo devido a questões de privacidade. Destacou, no entanto, que a Prefeitura avança para descomplicar tanto a abertura quanto os processos de oferta de soluções dos empreendedores ao poder público – criticados pelo professor Fabio Kon da Usp.

Além dos processos licitatórios tradicionais, há outros instrumentos que podem ser usados para viabilizar Parcerias Públicos Privadas. Citou o aplicativo Zona Azul como case relevante.  “Pensava-se antes numa estrutura hard com parquimetros, que nos levaria a modelos de contratação complexos e demorados que não atendiam o município. Houve neste caso disrupção na contratação, quando percebemos que numa cidade em que muitos andam com celulares, uma infraestrutura custosa não valeria a pena. O programa Zona Azul foi instaurado em tempo recorde e hoje o munícipe já conta com 5 empresas concorrentes ofertando o serviço”, analisou.

Ainda no escopo de soluções para o mundo público, o delegado Camilo Veigas destacou como a segurança pública no Brasil ainda é carente e poderia se servir de tecnologia para melhoria de serviços. O delegado citou o programa Câmera Solidária, em que aparatos privados dão respaldo a investigações já que apenas câmeras públicas seriam insuficientes.

Ecossistema empreendedor

As necessidades dos empreendedores foram citadas durante todo o painel. O professor Fabio Kon destacou a desconexão entre empresas brasileiras e as soluções vindas da academia, o que em certa medida explicaria o atraso do país do ponto de vista da disrupção tecnológica. Kon destacou a existência de fundos de financiamento cedidos pela Fapesp, o PIPE, para start-up que tem uma ideia inovadora e com possível impacto.

Ana Clévia Guerreiro, do SEBRAE, demostrou o interesse da instituição em fomentar cidades inteligentes a partir do entendimento de gargalos na comunicação entre os que propõem soluções e aqueles que precisam delas. Sugeriu que cabe a instituições como a dela propor pontes e metodologias replicáveis em todo território nacional. “Pensamos o desenvolvimento de uma metodologia que possa ser aplicada em qualquer cidade, seja Campinas ou Campina Grande”, disse,  citando programas da como o SEBRAE LAB como pontas de lança para criar ecossistemas.

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Cidadão Protagonista

O debate se concentrou, mais próximo ao seu fechamento, no binômio “cidadão-usuário” versus “cidadão protagonista”. Anielle Guedes, da Urban 3D, ponderou a necessidade de olhar para um cidadão participante e empoderado, que para além de um usuário dos serviços ofertados de forma setorizada pelo estado, seja alvo de um olhar integrado. Ana Clévia Guerreiro, colocou a questão complexa de forma simples e direta “A cidade inteligente é uma cidade inclusiva e mais humana”.

A promoção de um smart citizen se faz necessária para que interfaces tecnológicas funcionem verdadeiramente e tragam os benefícios a todos. Neste sentido, colocou Fabio Kon, é necessário foco e pesados investimentos na educação básica, mas também numa educação tecnológica.

Modelos de negócio para impacto social

 Na sequência do evento, empreendedores que já colocaram suas soluções a teste nos últimos anos em áreas como placemaking, serviços de emergência, resíduos sólidos e mobilidade puderam falar mais sobre seus projetos.

O painel teve fala do Secretario de Trabalho e Empreendedorismo de São Paulo, Eliseu Gabriel, que citou ações municipais para que a cidade seja menos “hostil” ao empreendedor, além de qualificá-lo para a tarefa de ter seu negócio.

Para citar algumas iniciativas, o São Paulo Criativa, que oferecerá cursos de T.I para capacitação; o Criado em Sampa, projeto desenvolvido em parceria com o British Council, cujo objetivo é ensinar como montar e gerir um negócio e uma plataforma de compras do poder público, a ser lançada entre 13/14 de julho.

Start-ups e suas soluções para as cidades

A NearBee, start –up voltadas a intermediação descomplicada de serviços emergenciais, já conta com um contrato com o governo do Rio de Janeiro. Por meio de um aplicativo, uma pessoa pode enviar um sinal de alerta a um serviço de emergência com o toque de um botão. A empresa está há um ano no mercado e foi premiada pela solução, que leva em conta questões de acessibilidade para pessoas com deficiências físicas.

A You Green, uma cooperativa de catadores que atua desde 2011, iniciou seus trabalhos atendendo consumidores diretos com coletas, por exemplo, de óleo de cozinha. Segundo Roger Koppel, fundador, o processo de mecanização dos resíduos sólidos é extremamente controverso num país em que  500 mil pessoas retiram seu sustento da catação. A ideia da You Green é possibilitar que a tecnologia impulsione o trabalho destes prestadores de serviço de forma eficiente, sem retirá-los do mercado.

Na área do Placemaking, a plataforma praças.com.br já está há 3 anos enfocando a requalificação de praças públicas por meio de crowdfundings. Dada a impossibilidade de conseguir recursos com o poder público e o desinteresse das empresas em adotar espaços de pouca visibilidade, a ideia da interface foi empoderar a comunidade, quem mais se beneficiaria de um espaço vivo e seguro. A plataforma pede um recurso mínimo de 2.000 reais para que seja viabilizada uma adoção coletiva. O valor coletado será repassado a fornecedores que cuidarão daquele espaço. O primeiro projeto de sucesso foi o da praça Villaboim, em Higienópolis.

A start-up Scipopuli mostrou sua experiência em projetos com mobilidade urbana com uso de dados abertos e crowdsourcing. Baseada no MobiLab da Prefeitura de São Paulo, foi responsável pelo desenvolvimento de um app  para passageiros frequentes de ônibus. Com a abertura de dados possibilitada por hackatona da SPTrans, criaram também uma plataforma com o intuito de entender os gargalos que  poderiam impedir o aumento da velocidade média dos ônibus nas faixas à direita. O mapeamento foi feito com a ajuda de GPS.

Fechando as apresentações, o Estante Mágica, plataforma de material pedagógico que quer qualificar a educação por competência, e ajudar na criação de cidadãos cada vez mais informados e inteligentes.

Horizonte para a inovação

O evento mostrou de maneira geral que as oportunidades existem. As experiências dos empreendedores mostram que é possível desenvolver negócios – com governo, empresas ou diretamente com cidadãos – que viabilizem cidades inteligentes no Brasil com soluções inovadoras. Pequenos e médios empreendedores, aliás, podem ser a chave para o florescimento de serviços urbanos de qualidade e para todos.